A estofagem ferroviária está entre as mais exigentes de todo o sector dos transportes. Os bancos de um comboio ou de um metro são usados por milhares de passageiros, em espaços fechados onde a segurança contra incêndios é regulada com rigor. Os materiais têm de conciliar resistência ao fogo, durabilidade extrema e conforto, e isso passa por cumprir a norma europeia EN 45545.
Um ambiente de uso intensivo
Ao contrário de um banco automóvel, usado por um número limitado de pessoas, um assento ferroviário sofre uso quase contínuo ao longo de toda a vida útil da carruagem. Isto traduz-se em ciclos de fricção, manchas, derrames e actos de vandalismo que os materiais comuns não suportariam.
Por isso, os revestimentos ferroviários são tecidos técnicos de elevada resistência à abrasão, fáceis de limpar e concebidos para manter o aspecto e o conforto durante anos de serviço público.
Estofagem ferroviária e normas de comportamento ao fogo
O requisito que mais define os materiais ferroviários é o comportamento ao fogo. Num espaço fechado e em movimento, com muitos passageiros, a propagação de chamas e a libertação de fumos tóxicos são riscos críticos, e a evacuação pode ser difícil, por exemplo em túnel.
A norma EN 45545
A referência europeia é a EN 45545 – Aplicações ferroviárias – Protecção contra incêndio em veículos ferroviários, composta por sete partes:
- Parte 1: generalidades (definições, categorias de operação e de projecto, objectivos de segurança).
- Parte 2: requisitos de comportamento ao fogo de materiais e componentes; é a que interessa directamente a quem escolhe tecidos, napas e espumas.
- Parte 3: requisitos de resistência ao fogo de barreiras corta-fogo.
- Parte 4: requisitos de segurança contra incêndio no projecto do material circulante.
- Parte 5: requisitos para equipamento eléctrico.
- Parte 6: sistemas de controlo e gestão de incêndio.
- Parte 7: instalações de líquidos e gases inflamáveis.
A EN 45545 foi publicada em 2013, na sequência das especificações técnicas CEN/TS 45545 de 2009, e tem sido revista: a parte 2 conta com a edição de 2020 e a alteração A1 de 2023. Tornou-se a referência obrigatória para veículos ferroviários novos na Europa a partir de 2016, quando as normas nacionais que coexistiam foram retiradas.
As normas nacionais anteriores
Antes da EN 45545, cada país tinha a sua própria norma, com métodos e limites diferentes. A EN 45545 substituiu, entre outras:
- NF F 16-101 e 16-102 (França);
- DIN 5510 (Alemanha), cuja parte 2 tratava do comportamento ao fogo;
- BS 6853 (Reino Unido);
- UNI CEI 11170 (Itália).
Estas referências ainda aparecem em fichas técnicas antigas e em documentos de frotas mais velhas. Num projecto actual, é a EN 45545 que o operador ou o fabricante do veículo indica no caderno de encargos.
Níveis de perigo HL1, HL2 e HL3
A EN 45545 não impõe o mesmo limite a todos os veículos. O rigor depende do nível de perigo (HL1 a HL3), determinado por duas classificações da parte 1:
- Categoria de operação (1 a 4): depende de o veículo circular em túneis ou viadutos e da facilidade de evacuação lateral.
- Categoria de projecto: N (veículo normal), A (automático, sem pessoal com formação de emergência a bordo), D (dois pisos) e S (carruagens-cama e couchette).
| Categoria de operação | N | A | D | S |
|---|---|---|---|---|
| 1 – sem túneis, evacuação lateral possível | HL1 | HL1 | HL1 | HL1 |
| 2 – túneis, evacuação lateral, local seguro próximo | HL2 | HL2 | HL2 | HL2 |
| 3 – túneis, evacuação lateral, local seguro distante | HL2 | HL2 | HL2 | HL3 |
| 4 – túneis, sem evacuação lateral | HL3 | HL3 | HL3 | HL3 |
O HL1 é o nível menos exigente e o HL3 o mais exigente. O nível aplicável ao veículo é definido pelo fabricante ou pelo operador, e não pelo estofador.
Conjuntos de requisitos (R1 a R28)
A parte 2 associa a cada componente do veículo um conjunto de requisitos (R1 a R28 na edição mais recente), que define os ensaios a fazer e os limites para cada nível de perigo. Dois pormenores evitam confusões:
- R1 aplica-se às superfícies interiores (paredes, tectos, cortinas, por exemplo), não ao estofo dos bancos.
- Os assentos têm requisitos próprios: R21 para o estofo (revestimento, espuma e camadas intermédias) de bancos de passageiros, braços e encostos de cabeça amovíveis; R18 para o banco completo, ensaiado segundo a EN 16989; R6 para cascos e superfícies de bancos sem estofo; e R19 para bancos do pessoal.
Ensaios ao fogo mais comuns
Os ensaios avaliam vários aspectos do comportamento ao fogo:
- Propagação de chama, pela ISO 5658-2, que mede o fluxo crítico de extinção.
- Libertação de calor, pela ISO 5660-1 (calorímetro de cone), que determina a taxa média máxima de libertação de calor (MARHE).
- Densidade de fumo, pela EN ISO 5659-2, que mede a opacidade do fumo numa câmara fechada.
- Toxicidade dos fumos, pela EN 17084, que mede o potencial tóxico dos gases libertados.
- Ignição por pequena chama, pela EN ISO 11925-2, em alguns conjuntos de requisitos.
- Banco completo, pela EN 16989, que avalia o assento inteiro, também em estado vandalizado.
Segundo os laboratórios de ensaio, o estofo de bancos de passageiros (R21) é avaliado pela libertação de calor, densidade de fumo e toxicidade. Os limites numéricos dependem do nível de perigo e constam do texto da norma.
Certificação: do conjunto e do fornecedor
O ensaio é feito sobre a construção completa que vai ser usada, e não sobre um componente isolado. O estofo de um banco inclui o revestimento, a espuma e, quando existam, camadas intermédias como barreiras ao fogo ou camadas anti-vandalismo. Por isso:
- Um tecido com boa resposta ao fogo não torna, por si só, o banco conforme.
- Trocar o tipo de espuma, de revestimento ou de barreira pode invalidar o resultado obtido para a construção original.
- A conformidade é demonstrada com relatórios de ensaio de laboratórios competentes, que o fabricante do veículo ou o operador reúne na sua documentação de certificação de incêndio.
Alguns materiais dispensam ensaios: a norma admite que materiais classificados como A1 segundo a EN 13501-1 não precisam de ensaio adicional. Mas esse caso quase nunca se aplica a tecidos e espumas de estofagem.
Tecidos técnicos ferroviários
Os tecidos usados na estofagem ferroviária combinam frequentemente fibras com características ignífugas com construções densas que resistem à abrasão. Características típicas:
- Elevada resistência à abrasão, medida em ciclos (por exemplo, pelo método Martindale, EN ISO 12947), com o valor mínimo indicado pelo operador.
- Comportamento ao fogo documentado para a construção em que vão ser usados.
- Facilidade de limpeza e resistência a manchas, essencial em transporte público.
- Solidez da cor à luz e ao uso.
- Conforto e respirabilidade para viagens prolongadas.

Espumas, enchimentos e componentes
Tal como os tecidos, as espumas e os enchimentos entram na avaliação da construção do banco. As espumas para este sector são formuladas para limitar a inflamabilidade e a libertação de fumo, mantendo o conforto e a recuperação da forma. Para os princípios gerais de densidade e dureza, veja Espumas para Estofos: Densidades e Onde Aplicar Cada Tipo.

Linhas, fitas, velcros e fixações também fazem parte do banco. Conforme o caderno de encargos, o operador pode pedir documentação para estes componentes, e não apenas para o tecido.
Durabilidade e manutenção
A durabilidade é um critério económico central no sector ferroviário. Imobilizar material circulante para substituir estofos é caro, pelo que se privilegiam materiais com grande vida útil e manutenção simples.
A facilidade de limpeza e a possibilidade de substituir capas ou módulos sem desmontar todo o banco reduzem os custos ao longo da vida da carruagem.
Materiais CarStuff e estofagem ferroviária: confirmar caso a caso
A CarStuff fornece materiais para estofadores e tem no catálogo um filtro por sector, que inclui o Sector Ferroviária. Essa etiqueta indica um uso possível, não uma certificação. Os produtos associados a esse sector incluem napas, semi-peles e ferragens de fixação, e nas fichas de produto que consultámos não consta classificação de comportamento ao fogo segundo a EN 45545.
Por isso, num projecto ferroviário que exija esta norma:
- Obtenha do operador ou do fabricante do veículo o nível de perigo e os conjuntos de requisitos aplicáveis.
- Peça ao fornecedor os relatórios de ensaio da construção proposta (revestimento, espuma e camadas intermédias).
- Contacte a CarStuff para confirmar, caso a caso, se existe material com a documentação exigida; não assuma que uma referência do catálogo está certificada.
Este artigo é informativo: os limites e os métodos vinculativos constam do texto das normas e do caderno de encargos de cada projecto. Para materiais sem requisitos de certificação, pode consultar os tecidos auto do catálogo.
Perguntas Frequentes
Porque é que a estofagem ferroviária tem requisitos de fogo tão exigentes?
Porque os comboios e metros são espaços fechados, em movimento e com muitos passageiros. A propagação de chamas, o fumo e os gases tóxicos dificultam a evacuação, pelo que o sector impõe ensaios rigorosos.
Que norma se aplica aos materiais ferroviários na Europa?
A EN 45545, cuja parte 2 define os requisitos de comportamento ao fogo de materiais e componentes. Substituiu normas nacionais como a NF F 16-101 (França), a DIN 5510 (Alemanha), a BS 6853 (Reino Unido) e a UNI CEI 11170 (Itália).
O que significam HL1, HL2 e HL3?
São os níveis de perigo da EN 45545, do menos exigente (HL1) ao mais exigente (HL3). Dependem do modo como o veículo opera (por exemplo, em túnel) e do tipo de veículo, e são definidos pelo fabricante ou pelo operador.
O requisito R1 aplica-se ao estofo dos bancos?
Não. O R1 aplica-se às superfícies interiores, como paredes e tectos. O estofo de bancos de passageiros tem requisitos próprios, como o R21, e o banco completo pode ser avaliado pelo R18.
Basta o tecido ser certificado?
Não. O ensaio é feito à construção completa, com revestimento, espuma e camadas intermédias. Trocar a espuma ou o revestimento por outros diferentes pode invalidar a conformidade.
A CarStuff fornece materiais certificados para material circulante ferroviário?
Essa confirmação faz-se caso a caso. O catálogo tem um filtro por Sector Ferroviária, mas as fichas de produto consultadas não indicam certificação EN 45545; contacte a CarStuff com os requisitos do projecto.
Para saber mais
- Categoria: Sector Ferroviária
- Artigos relacionados: Espumas para Estofos: Densidades · Onde Comprar Materiais para Estofadores
Consulte o Sector Ferroviária e contacte-nos com o nível de perigo e os requisitos do seu projecto para confirmarmos que materiais, e com que documentação, podemos fornecer.

